20/07/2019

Parintins, a doce face da pavulagem no dia a dia da ilha

Curuminzada em Parintins

A curuminzada de Parintins aproveita a enchente e se diverte pulando flechada na rampa. Fotos: Peta Cid.

Texto e fotos: Peta Cid

O Festival Folclórico dos bois Garantido e Caprichoso atrai uma legião de aventureiros no mês de junho e exibe ao visitante uma Parintins enxerida, impetuosa, fogosa, festeira, barulhenta, que apaixona ao primeiro rufar do tambor. Bem diferente do furdunço da cidade que gosta de “se aparecer” e vibra com o turbilhão de emoções do período da festa, Parintins tem outra face, a de doce cidadezinha do interior do Amazonas, com hábitos regionais, tranquila, quieta, pacata, sossegada, pronta para viver um caso de amor com quem gosta de simplicidade.

A cidade se movimenta como o acorde da toada ditando o ritmo da vida – ora frenética, animada, embalada; ora cadenciada, ritmada, compassada. Essa terra morena, de sorriso largo, cheia de pavulagem quer ser mostrada com o olhar do caboclo, alegre, sábio, respeitador, criativo, mas vaidoso, desconfiado, metido, atrevido.

A Parintins faceira com um jeito de ser muito peculiar preserva os costumes, as tradições e se revela no convívio com a floresta, na fortaleza das remadas, no embalar preguiçoso das redes, nas cadeiras nas calçadas, nas conversas dos fins de tarde, no cotidiano dos caboclos, no colorido das casas e na arte que está por toda parte.

A vida começa cedo em Parintins. Galo canta às cinco da manhã, o rádio anuncia as notícias do dia, os sinos tocam chamando os devotos para a missa das seis. É hora de espreguiçar, levantar, pegar a bicicleta ou a moto, seguir para o mercado ou escolher os produtos fresquinhos que chegam às feiras.

Na Francesa, o revendedor Luciano Bananinha oferece o peixe do almoço, um tambaqui de doze quilos que vai ser temperado com cheiro-verde e pimenta de cheiro e malagueta. “Pode comer assado, frito ou na caldeirada”, oferece.

Na feira do Bagaço tem de tudo: bodó, pacu, tamuatá, matrinxã, curimatã,  tucunaré. É tempo de fartura do brasileirinho jaraqui. Tucupi e farinha “da boa” para o pirão vem do Máximo, comunidade a trinta minutos da ilha que tem tradição de farinhada.

Casas de Parintins

O colorido e o amor aos bumbás nas casas de Parintins.

Tambaqui de 12kg em Parintins

O vendedor Luciano Bananinha mostra o tambaqui de 12 quilos.

 

Jaraqui sendo ticado em Parintins

Baciada de jaraqui, época de fartura do peixe.

 

Na passada pelas bancas, uma paradinha no Boxe do Pinto onde tem andiroba e copaíba que curam as moléstias. O vendedor Israel Maia faz propaganda da farmácia natural. “Aqui tem cura pra tudo: preciosa pra prisão de ventre e nervoso, canela de velho pra artrite, pata de vaca, saracura mirá, seca barriga, assacu, picão pra hemorroida, diarreia e o mais procurado, o viagra, uma mistura de guaraná, catuaba, miratã e murapuama. Esse é forte mesmo”, assegura, convencendo o cliente da potência do energético.

Na cheia, quando a água “esbarra” na beira da Avenida Amazonas, os barcos aportam, um na “ilharga” do outro, e a escadaria submersa da Francesa parece um grande arraial com vendas de alimentos e bebidas.

Muita gente admira o movimento no porto, a alegria da chegada e a tristeza da despedida. Os ambulantes circulam com bacias na cabeça oferecendo banana frita, frutas e queijo manteiga, especialidade do parintinense.

No mercado Leopoldo Neves, Raimundo Félix Vieira, 65, confere as novidades do “Boxe Seo Vivaldinho”, do Fernando Papagaio. “Ficou bonito o mercado, mas eu vim mesmo foi comprar xarope de jatobá. Não é todo remédio que compete, mas pra mim é muito bom pra tosse, melhor que remédio de farmácia”, revela.

Uma risadaria gostosa chama a atenção pras bandas da beirada. É a curuminzada que aproveita a enchente e desafia o grande rio pulando flechada na rampa.

Na Francesa, os barcos atracam quase na rua.

Fernando Papagaio é dono do Boxe ‘Seo Vivaldinho”.

Raimundo Félix Vieira diz que o xarope de jatobá é infalível para a tosse.

Israel Maia tem uma farmácia natural que, segundo ele, cura de tudo.

 

Manhãs quentes e movimentadas

As manhãs são quentes na ilha, a cidade se mexe, carros, motos, bicicletas e triciclos trançam pra lá e pra cá num trânsito que mais parece uma bagunça na busca incessante por organização. O transporte preferido é o triciclo. “A gente leva qualquer coisa, passageiros, carvão, mercadoria, colchão, madeira, geladeira”, conta o Euler Silva. “Eu vendo de tudo no triciclo e ainda parcelo de várias vezes”, anuncia o tricleiro prestamista Geovane Vieira. A Rose Bahia enfeita o triciclo com frutas diversas e circula onde tem movimento. “Dá pra vender, mas espero o Festival para melhorar”, relata. A categoria tem agora o certificado de Tricicleiro Pai D´égua, resultante dos cursos de formação oferecidos pelo governo.

Em vários pontos, feiras e esquinas as bancas de tucumã ofertam o fruto da melhor qualidade. Tem até descascado e pronto para consumir com pão ou com tapioquinha. Na Feira da Praça dos Bois produtores vendem beiju lavado, lencinho, beiju cica e pé de moleque, o famoso beiju peteca.

O sol escaldante do meio-dia dá o sinal do intervalo. Parintins fecha para o almoço, as ruas esvaziam parcialmente, árvores oferecem suas sombras e dá tempo de esticar as pernas na rede cheirosa que chama para um cochilo, com ou sem “aquela inhaca”, espécie de catinga personalizada.

 

 

O tricicleiro Euler Silva não dispensa serviço, leva de passageiro à mercadoria.

Geovane Vieira tem uma loja no triciclo e até parcela o pagamento.

Triciclos de Parintins, mil e uma utilidades

Rose Bahia vende frutas no triciclo, nos pontos de maior movimento da cidade.

Beijus e pé de moleque de Parintins

Na Feira da Praça dos Bois, produtores vendem vários tipos de beijus e pé de moleque.

 

De petiscos a mexericos 

Nas tardes mornas, um passeio na orla afasta o calor.  Nas esquinas as tacacazeiras estendem toalhas branquinhas sobre as mesas e arrumam os bancos à espera da freguesia. O cheiro do tucupi exala no ar.  Vendas nas frentes das casas convidam para a merenda. Tem croquete, pastel, garapa, refrescos e flau de taperebá, cupuaçu e graviola.

À tardinha na Baixa do São José pescadores chegam dos lagos com peixes fresquinhos para servir na “janta”.  Na Curva da Morte, no ponto Prego de Ouro, tem as melhores cambadas com preço diferenciado.

Espalhar cadeiras na calçada ainda é um programa das vizinhanças. Com 94 anos, dona Julita Cid nunca deixou o hábito de sentar na frente de casa, na Rua Gomes de Castro. “Eu gosto de apreciar o movimento, acompanho a venda de bolo da minha neta. De primeiro a gente contava história de visagem, mas agora tudo está diferente, até as visagens foram embora”, diz, abrindo um sorriso, ao lado da filha Lucia Cid, caprichosíssima da gema.

Os fins de tarde são um convite para as línguas afiadas nas conversas de pé de ouvido. Os portões testemunham divertidos mexericos sobre a vida alheia. Fulana casou, a outra emprenhou, cicrana passou na faculdade, beltrano agora é doutor.

Se o menino cair, machucar, pegar quebranto, tem sempre uma comadre que puxa desmentidura, rasgadura ou uma benzedeira que reza com folhas de arruda e peão roxo para afastar olho gordo e mal olhado.

O sol de põe sempre nos braços do grande rio. Em junho ele parece mais belo e “senta”, como diz o caboclo, “bem no meio” do horizonte, lá onde se alcança a visão dos barcos vindos de Manaus.

Na praça da matriz, fiéis esperam a novena da noite. O terço dos homens reúne devotos de Nossa Senhora do Carmo na grande Catedral. Crianças brincam, comem pipoca e sorvete. Mais à frente, no comércio da rua João Melo, o barulho das portas fecham mais um dia de batalha.

Ponto Prego de Ouro em Parintins

No ponto Prego de Ouro, tem as melhores cambadas de peixes, mas o preço também é diferenciado.

Dona Julita Cid de Parintins

Todas as tardes, Dona Julita Cid senta com a filha, Lúcia Cid, em frente de casa.

Rede feita em Parintins

Rede do jeito que parintinense gosta. É feita pelos detentos e vendida na frente do presídio.

Vendedores de farinha nas feiras.

Banca de tucumã-piranga.

 

 

Diversão e descanso

A noite chega e com ela o medo natural dos ladrões que substituíram as visagens. A Parintins discreta, calma e devota também sofre hoje com a violência e mazelas sociais. Mesmo assim, é uma maravilha se deleitar na orla, se deliciar com a brisa que sopra do Amazonas, admirar a imensidão de águas e apreciar as luzinhas das embarcações piscando ao longe, umas sumindo nas curvas do rio, outras se aproximando lotadas de viajantes.

Saborear um ‘churrasquinho de gato’ antes do descanso da noite faz parte do ritual. A Praça dos Bois tem opções de lanchonetes, bares, restaurantes e soparias. A Soparia Mocotó, da Carmem Cid, há mais de 20 anos serve sopa de mocotó com caldo de feijão.

Lá pelas tantas os tambores rufam na Baixa e na Francesa convidando para os ensaios nos currais. Pescadores, ribeirinhos, tricicleiros vestem a fantasia e agora são marujeiros, batuqueiros, dançarinos, protagonistas da grande festa.

O ventinho gostoso da madrugada se avizinha e nas áreas afastadas Parintins encanta com o céu mais estrelado, ou com a lua que surge por entre a mata inspirando os poetas.  É chegada a hora do repouso. Dorme no suave berço da floresta a cidade pávula e hospitaleira, afetuosa e bisbilhoteira, terna, doce e festeira. Parintins, meiga flor descrita em rimas, decantada em versos e aclamada por sua arte e pelo carinhoso jeito de ser de sua gente.

Por do sol em Parintins

Hora de dar aquela paradinha na orla para apreciar o por do sol.

5 thoughts on “Parintins, a doce face da pavulagem no dia a dia da ilha”

  1. Armanda Pessôa disse:

    Amei o texto,amei a linda homenagem,e só apertou ainda mais a saudade acumulada! Consegui lembrar até a sensação maravilhosa de sentir a brisa do meu amado rio Amazonas, quando o contemplava lá do Porto da Cidade…

  2. Giovana disse:

    Que texto lindo, a cada frase eu ia imaginando tudo aquilo que vivi quando criança, adolescente. 😊👏🏼👏🏼👏🏼

  3. Maria Das Graças Pereira disse:

    Que texto lindo, Parabéns
    Estarei lá dia 27 ,se Deus quiser

  4. Antonio Marinho disse:

    No meu tempo era “lá na frente” ou “lá na beira”. Agora apelidaram já de “orla”. Nem combina.

  5. Maria das Mercês disse:

    O texto levou-me de volta à cidade que eu passei minha infância e parte da adolescência. Grata, Marcos, por ter me proporcionado às lembranças que me deixaram feliz.

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